Comprar absorvente todo mês e sempre falar "esse vai ser o ultimo";
É num mês torcer para não menstruar com esperança de que agora está grávida e no mês seguinte torcer para menstruar e (re)iniciar o tratamento;
Conhecer procedimentos médicos com nomes estranhos que ninguém mais consegue pronunciar (histerosalpingografia, azoospermia, ectopica, antifosfatidil serina, entre tantos outros);
Descobrir que mulheres também tem saco;
Ler tudo na internet, achar que já sabe de tudo e perceber que não sabe nada quando conversa com outras fivetes;
Não ter mais (tanto) pudor com exames ginecológicos;
Descobrir que há coisas bem piores que um simples Papanicolau;
Saber de cabo a rabo todo o sistema reprodutor feminino;
Descobrir talentos que você não sabia que tinha: conselheira de Fivete, ministrar e aplicar injeções, agenda para sincronizar seu ciclo menstrual com os exames e consultas, farmacêutica, cozinheira, curandeira, etc;
Incorporar ao seu cardápio alimentos como inhame, phisalys, abacaxi, clara de ovo, proteínas, gelatina, gatorade, etc;
Iniciar o tratamento com o coração cheio de esperança, a cabeça cheia de dúvidas e o bolso cheio de espaço;
É vender o carro. Ou perceber que já poderia ter comprado um carro;
É deixar de comprar aquela bolsa ma-ra-vi-lho-sa, deixa de viajar, deixar de ir ao seu restaurante favorito, afinal cada centavo vai fazer falta;
Gastar horrores com médico, remédios, exames e o tratamento sem garantia nenhuma;
Perceber que a sua TPM é fichinha perto da maluquice que vira o seu temperamento com tantos hormônios;
Ter vontade de dar um murro toda vez que vê alguém de “mimimi” por ter que tomar uma (única) injeção, ou por não gostar de tomar remédio, ou porque está com cólica, ou porque não aguenta mais estar grávida, ou porque quer que seja (afinal você está uma bomba hormonal e qualquer coisa te irrita);
Odiar o marido por qualquer coisa; amar o marido por muito menos;
Sentir um ódio do mundo quando alguém diz que ficou grávida sem querer;
Se revoltar com casais que tem 300 filhos e não dão atenção para nenhum;
Não entender porque casais como esse têm tanta facilidade enquanto você passa por tanta coisa para realizar o seu maior sonho e que “eles” não dão o valor que uma gestação merece;
Sentir "dor de cotovelo" com tantos bebês lindos das amigas no Facebook; e depois se sentir horrível por isso;
É se sentir grávida assim que sair do consultório pós TEC, transferência ou simplesmente pós punção;
É não contar para ninguém mesmo querendo contar para todo mundo;
Não dormir na véspera da transferência;
Ter medo de que seus bebês “escorreguem” com cada passo seu;
É não saber o que pode e o que não pode, o que é bom sinal ou o que não é, é ter medo de cada sangramento, não saber se é nidação ou não;
É controlar a sua ansiedade. E do marido, dos pais, dos sogros, dos irmãos, dos amigos, do cachorro, do papagaio...;
É achar os 12 dias até o beta o período mais longo da sua vida e torcer para que passe rápido e no dia tão esperado morrer de medo de ir fazer o exame;
É esperar o exame ficar pronto de uma maneira como se sua vida dependesse disso;
É tremer ao pegar os exames nas mãos;
É ter o mar nos olhos toda vez que lê a palavra “negativo”;
É reler e reler e reler. E depois disso tudo ir ler se o nome do paciente é realmente o seu;
É se sentir de luto.
É lutar contra o luto. Afinal, você tem uma vida para viver!;
É dizer depois de um negativo "Nunca mais vou passar por isso! Essa é a ultima vez!" e mudar de ideia dois dias depois;
É juntar os cacos, colar cada pedacinho da alma, achar positivismo sabe se lá de onde e começar tudo novamente. Às vezes por mais de uma vez;
É se reconhecer lendo todas as situações acima lembrando das situações pelas quais você passou.
É olhar para traz e ver o quanto já lutamos e principalmente o quanto aprendemos.
E principalmente é sonhar que um dia terá seu bebê em seus braços e quando olhar a carinha dele você vai pensar “tudo isso valeu a pena”.
Texto: Daniela Tosatto.